quarta-feira, 26 de maio de 2010

Algumas Reflexões

Depois de três anos submetendo-me a psicanálise percebi uma coisa bastante interessante que ainda não tinha me dado conta, talvez por distração, talvez por conveniência, talvez por ainda não estar preparado para entrar em contato com essa parte que me constitui.
Percebi isso claramente após ler o maravilhoso Caio F. e, desde então, me envolvi de maneira mágica, hipnotizada com seus escritos que não consigo parar de lê-lo, citá-lo e recomendá-lo.

A seguir o trecho que mudou radicalmente meu olhar sobre mim e sobre o mundo...
Faz parte do conto Além do Ponto

"... mas não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era. Começou a acontecer uma coisa confusa na minha cabeça, essa história de não querer que ele soubesse que eu era eu, encharcado naquela chuva toda que caía, caía, caía e tive vontade de voltar para algum lugar seco e quente, se houvesse, e não lembrava de nenhum, ou parar para sempre ali mesmo naquela esquina cinzenta que eu tentava atravessar sem conseguir, os carros me jogando água e lama ao passar, mas eu não podia, ou podia mas não devia, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar indo ao encontro dele, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar indo ao encontro dele, que me abriria a porta, o sax gemido ao fundo e quem sabe uma lareira, pinhões, vinho quente com cravo e canela, essas coisas do inverno, e mais ainda, eu precisava deter a vontade de voltar atrás ou ficar parado, pois tem um ponto, eu descobria, em que você perde o comando das próprias pernas, não é bem assim, descoberta tortuosa que o frio e a chuva não me deixavam mastigar direito, eu apenas começava a saber que tem um ponto, e eu dividido querendo ver o depois do ponto e também aquele agradável dele me esperando quente e pronto."

Pois é, quanta coisa esse trecho traz para refletir.
Primeiramente é difícil saber quem se é, assumir isso, e ir ao encontro do que se quer.
Quem eu sou é a pergunta mais inconveniente e árdua para responder, nem que seja sucintamente.
Quase sempre temos certezas e convicções de nosso modo de vivenciar as experiências e temos repostas prontas, acabamos nos descrevendo de maneira superficial.
Mas e aquilo que apenas nós conhecemos em nós mesmos?
Aqueles porões mais escuros, aqueles desejos mais primários, crus, aquelas vontades reprovadas socialmente. Onde ficam? Não as temos? As negamos, escondemos?
Aqueles sonhos mais secretos, volúpias, gozos mais incomuns?
Escondemos de todos e de nós mesmos, por quê?
Não temos coragem de mostrar aos outros e afirmar a nossa identidade ou vamos fingindo ser alguém que gostaríamos, idealizaríamos.
Cabe aqui a etimologia da palavra personalidade que vem do grego persona que significa máscara
Então personalidade é a máscara que colocamos para nos apresentar ao mundo e aos outros
E vivemos nosso cotidiano baseados nela, fazendo forças, despendemos energia para que nosso ser verdadeiro não apareça, pois quando estamos de máscara podemos ser quem queremos ser

E na nossa própria companhia, quem somos?
Continuamos anestesiados e amordaçados pela nossa personalidade ou sentimos as coisas de maneira mais pura, real, verdadeira?
Mostramos a alguém o nosso ser verdadeiro ou continuamos fingindo até para nós mesmos?

Como será viver sem ter uma máscara?
O que tememos tanto?
A reprovação, a rejeição o abandono dos outros?
Porque fingimos ser o que não somos?
É mais fácil representar um papel social do que sermos autênticos e coerentes com nossos desejos, frustrações, irrealizações, experiências negativas...

Que representar é mais fácil não nos resta dúvida, ms e a ética com nós mesmos, onde fica?

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